oAnimaniaco Entrevista Marcos Magalhães, Fundador do Animamundi

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O ANIMA MUNDI é o segundo maior festival de animação do mundo, depois de ANNECY, na França. Marcos Magalhães,  um dos fundadores, que começou sua carreira  já ganhando prêmio e sendo convidado a ficar no lendário National Film Board do Canadá,  conta um pouco dessa jornada de quase 25 anos.  

 

VOCÊ PODIA TER FICADO NO CANADÁ, NO BEM BOM, EM UM MERCADO JÁ MADURO. POR QUE DECIDIU VOLTAR AO BRASIL? FOI, TIPO, MISSÃO?
Sim. Queria difundir por aqui o que eu tinha aprendido por lá. Não sabia exatamente como, mas não queria uma Marcos Magalhães LTDA, tipo Walt Disney ou Mauricio de Sousa Produções, que é um modelo bem usado. Mas eu pensava sim em ajudar a fomentar um movimento de animação no Brasil.

E DAÍ SHAZZAM? SURGIU O ANIMAMUNDI?
Não. Demorou. A ideia de um evento desse tipo estava na cabeça porque, por conta da minha carreira de animador, eu havia conhecido diversos festivais: Cracóvia, Cannes, Ottawa, Zagreb. Me apaixonei por essa possibilidade de intercâmbio entre artistas, para refrescar a cabeça, conhecer novas técnicas.

Durante os vários anos, pelos vários projetos que trabalhei, discutia com artistas sobre a ideia de uma mostra. Mas a tempestade perfeita se formou no início da década d 90. O mercado cultural, sobretudo, entrou em crise (com o fechamento da EMBRAFILME), deixando o mercado órfão de conteúdo cinematográfico.

Minha amiga Leia Zagury (outra fundadora do Anima Mundi), que havia ido estudar na CarlArts e tinha vários contatos internacionais, veio de férias para o Brasil com essa ideia. O recém-inaugurado CCBB estava em busca de projetos…. então nós dois, mais a Aida (Queiroz) e o Cesar (Coelho), apresentamos a ideia. Só aí, então…

SHAZZAM!!!
Isso.

 

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Os fundadores

 

EM MENOS DE UMA DÉCADA, PASSAMOS DE UM PAÍS CUJA ÚNICA REFERÊNCIA POPULAR DE ANIMAÇÃO ERA TURMA DA MÔNICA, PARA OUTRO, COM TRÊS VENCEDORES DE ANNECY CONSECUTIVOS E UMA INDICAÇÃO AO OSCAR. O QUE O ANIMA MUNDI TEVE A VER COM ISSO?
A animação brasileira se afirma pelo conteúdo autoral. Não estamos fazendo episódio de Simpsons. Não é uma crítica, as séries estrangeiras são ótimas, mas estamos criando uma forma de expressão característica, não apenas reproduzindo excelência técnica. O festival incentiva, e é a janela perfeita para essas produções.
Mas vai além: temos grandes autores, filmes, personagens. Houve a revolução tecnológica: os meios de produção ficaram mais acessíveis, a distribuição… mesmo antes da internet houve a TV a cabo, aumentando a demanda por conteúdo.

Houve o fim da inflação (como investir em um filme que duraria 4 anos para ser feito com uma inflação de 30 e tantos por cento ao mês?) Os animadores aproveitaram bem isso.
E teve o governo (através do BNDES) que percebeu que havia um movimento no setor, e grandes possibilidades de crescimento. Fizeram um estudo comparativo com França, Coréia, outros países onde houve um desenvolvimento de mercado de animação planejado. Hoje, além de grandes curtas e candidatas ao Oscar, temos séries na TV que são campeãs de audiência.

VOCÊ PARECE BEM FELIZ COM O CAMINHO DA ANIMAÇÃO NO BRASIL …
Sim. Muito.

POR QUE O FESTIVAL TEM ESSE CARÁTER COMPETITIVO, DE PREMIAÇÃO?
Nos primeiros três anos não havia premiação. Era uma mostra.

Mas havia um tipo de público que achava importante a competição. E também produtores e diretores, que não achavam valer a pena inscrever o filme em um festival que não fosse competitivo. Então cedemos ao prêmio. Só do púbico, originalmente.
Mas depois, quando o festival ficou tão importante (se refere à certificação do Oscar, que habilita um filme a se candidatar à premiação da academia), queríamos ressaltar os filmes que tinham qualidade além da empatia com o público. Então criamos um sistema de votação com cerca de 40 júris, com background em animação.

O QUE FAZ DO ANIMA MUNDI UM FESTIVAL DIFERENTE DOS OUTROS AO REDOR DO MUNDO?
O estúdio aberto. Todo estrangeiro que vem e vê isso fica maravilhado, com toda aquela gente colocando a mão na massa (literalmente), fazendo uma animação naquele clima.
Eles acham que isso ajuda a fomentar bastante a animação. O que deve ser verdade, pois tem vários animadores, já formados, que vem até a gente e diz que a primeira vez que fez animação foi nas oficinas do Anima Mundi.

 

 

E o fato de ser feito em duas cidades. O Kihashiro Kawamoto (animador japonês) deu um apelido para o festival: the long flying festival, porque demorava 10 dias no rio, e depois todo mundo ia para São Paulo, onde o festival durava mais 5 dias.

QUAIS OS PLANOS PARA O FUTURO DO ANIMA MUNDI?
Queremos ampliar o programa de cursos. Queremos fazer uma escola Anima Mundi. Não para formar mão de obra apenas, mas de cabeças – diretores, produtores, gente que vai montar estúdio, criar personagens e dar continuidade ao ciclo.

PARA FINALIZAR. QUAL ANIMAÇÃO QUE VIU RECENTEMENTE QUE TE CHAMOU A ATENÇÃO?
Além das 1500 que vi para o festival?

KKKKKKKKK

Meu filho me apresentou Bo Jack horseman, do Netflix. Achei muito interessante porque parece simples, mas você percebe que tem uma grande quantidade de trabalho para atingir essa simplicidade. O Adventure Time também é bem interessante…

E COM TANTO TRABALHO POR CONTA DO FESTIVAL, VOCÊ AINDA DESENHA?
Sim. Outro dia sai rabiscando com canetinha e o negócio acabou virando um projeto de curta, que vou fazer totalmente independente, por prazer. O problema é mesmo o tempo, sempre escasso, quando se faz um festival dessse tipo. Ele consome o ano inteiro. Quando acaba uma edição já começa a organização da próxima. Mas continuo com projetos inscritos em editais, projetos de curtas, de série.

ENTÃO A EMPOLGAÇÃO EM PRODUZIR ANIMAÇÃO CONTINUA?
Total. Animação é meu veículo de expressão.

COMO DIZEM OS GRINGOS “IT NEVER GOES AWAY”
Never

O Anima Mundi 2017 acontece nos dias 19 a 21 de Julho no Rio de Janeiro e 23 a 30 de Julho em São Paulo. Mais detalhes no site.

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