6 Motivos para Ler o Monstro do Pântano de Alan Moore

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Como boa nerd que sou, amo histórias em quadrinhos. Adoro os super heróis, tanto da Marvel quanto da DC (com uma preferência pela última; sorry Team Marvel). Gosto das histórias mais breves e simplistas, com seus obstáculos absurdos, que são resolvidos por um desfecho surreal, pois são capazes de divertir e ajudar naquele escape da realidade nosso de cada dia.

Porém, algumas histórias mudam a visão de mundo, a perspectiva de realidade, quebram e constroem conceitos: Monstro do Pântano, na saga do Alan Moore é uma delas. E essas histórias  sempre merecem ser relembradas.

 

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AS ORIGENS DO MONSTRO

O Monstro do Pântano foi criado por Len Wein para uma antologia de horror da DC, em 1971. A série foi publicada durante quatro anos e até rolou um filme dirigido por Wes Craven que deu muito muito errado (sério, não assistam). Com o título à beira do cancelamento Len passou a bola pro Alan Moore, que assumiu a partir de 1984.

Moore se viu com um personagem clichê de cientista negligente que sofre um acidente durante uma experiência, ganha uma mutação e toda aquela coisa. Ao se tornar uma planta ambulante, Alec Holland passa a errar pelos pântanos da Lousiana na esperança da recuperar a humanidade perdida. “Um personagem de difícil desenvolvimento” , como disse Moore: “A história inteira dependia de um indivíduo que é basicamente um Hamlet coberto de muco. Ele só fica andando por aí, sentindo pena de si próprio. Todo mundo sabe que a busca para recuperar a humanidade perdida jamais chegará ao fim, porque assim que ele fizer isso, a história termina.”

Mas entregaram a história que estava fadada ao fracasso nas mãos de quem sabe fazer a coisa. O resultado foi  um clássico atemporal.

Qual o segredo?

Moore responde: “Quando eu assumi Monstro do Pântano, tentei tornar as histórias mais críveis – o que é um pouco difícil quando se está lidando com um enorme amontoado animado de musgo e lama. Mas você contorna isso ao fazer com que as histórias falem sobre temas reais e de relevância social, que terão algum significado para o leitor, ao invés de uma infindável sucessão de pessoas de colante lutando entre si.”

Touché. A salvação do personagem foi a inserção de conceitos sociais e filosóficos, suscitando a reflexão existencial. Seguem alguns desse conceitos que, ao meu ver, são razões mais que suficientes para que essa saga seja considerada leitura obrigatória para qualquer fã de quadrinhos. Só cuidado ao prosseguir…. mind blowings à vista:

 

1.  O Questionamento sobre a humanidade

O Monstro do Pântano passa as primeiras edições da saga em meio a aventuras diversas, em um questionamento sobre a sua humanidade perdida. A exploração de sua consciência humana como Alec Holland, apropriada pelo verde, nos leva à questionar nossa própria humanidade;

 

2. O VERDE vs a CARNE

Na edição “Do Outro Mundo Verde” o Homem-Florônico se diz usado pela natureza para exterminar todas as formas de vida que causaram tantos danos à ecosfera, e utilizando a Lei de Talião como lema, parte com motosserras e machados contra a população, com a intenção de destruir o mundo da carne, e estabelecer no mundo a hegemonia do reino vegetal.

Este  então é detido pelo Monstro do Pântano, que articula mostrando a razão pela qual a natureza não sobreviveria sem a carne. As plantas voltam atrás.

Nessa passagem o texto brinca de ping-pong com nossa mente, nos levando a ora ficar do lado da natureza, ora do homem, trazendo uma compreensão que flui por um discurso transcendental da relação simbiótica  entre ambos.

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Louco, né?

3.  Como pode Deus permitir o Inferno?

A relação entre Deus e o Inferno é uma questão muito explorada na literatura, inclusive no Sandman do Neil Gaiman, então não me surpreende que também seja abordada em Montro do Pântano.

Em uma conversa com o demônio Etrigan, após conhecer o Inferno,  o Monstro do Pântano faz a pergunta que vive em muitos de nós: “Etrigan… Como pôde Deus permitir um lugar assim?”

Com grande sabedoria, o demônio rimador responde: “Acha que Deus, malquerendo o homem, fez este lugar por rejeitar espadas em riste e desejos desgarrões?” “Não foi ele. A terrível verdade, meu caro, é secular: foi gente ainda viva que abriu estes salões.”
Ainda no mesmo discurso, Etrigan faz uma afirmação que coloca mais lenha na fogueira da nossa reflexão: “Cada alma ascende ou cai pela própria ação. Ele lamenta, mas não pode evitar a queda.”

 

4.  A dificuldade em julgarmos a nós mesmos

Se você pudesse escolher ver a si mesmo como é, seu eu mais verdadeiro e assustador, com todo o poder de todos seus sentidos, você o faria ?

Somos nós juízes de nós mesmos para afirmarmos se somos bons ou maus? Para julgarmos se estamos certos ou errados?

Em o Monstro do Pântano, a verdade se apresenta a quem come um tubérculo. As diversas reações a ele são no mínimo intrigantes;
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E enfim, minha passagem favorita:

 

5. O que é o mal, afinal?

Quem nunca se perguntou o que é o mal? Até o próprio mal, a sombra primal, a escuridão, quer saber o que ela é. E o Monstro do Pântano faz um discurso, que considero um dos mais brilhantes da saga, e não tenho outra escolha a não ser transcreve-lo aqui:

“Vi o mal, vi como é cruel, vi como arruína a esmo tanto inocentes como culpados. E não entendi o mal. Perguntei sobre o mal no Parlamento das Árvores, cujo conhecimento é mais antigo e profundo que o meu. Pareceram insistir na crença de que o mal não existe. Mas eu tinha visto o mal e a resposta me foi incompreensível.”

“Desse modo, seguiram falando de afídeos que comem folhas e são comidos por coleópteros que o solo devora para então nutrir a folhagem. Perguntaram que lugar o mal teria nesse ciclo, e mandaram olhar para o solo.”

“O solo preto é rico em detritos podres e é onde brota uma gloriosa vida. Mas por mais deslumbrante que seja o viço da vida, no fim, tudo decai para o mesmo húmus escuro. Talvez… talvez o mal seja o húmus resultante da decomposição da virtude. Não poderia ser dessa fértil camada escura da terra que a virtude cresce com mais vigor?”

Essa é apenas uma pequena parcela da infinidade filosófica que é o Monstro do Pântano, uma obra que surpreende mais a cada releitura.

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Mas eu disse que eram 6 razões certo ?  Então pega essa:

6. John Constantine teve sua primeira aparição em uma história do Monstro do Pântano

Em resposta a um pedido dos artistas Steve Bissete e John Totleben para que o escritor inserisse um novo membro no elenco que fosse parecido com o músico Sting. Segundo Moore: “Ocorreu-me que poderia ser interessante criar um mago da classe trabalhadora, fumante e vestindo sobretudo marrom. Alguém que conhecesse as ruas, a classe trabalhadora e de um pano de fundo diferente dos místicos padrões das revistas em quadrinhos. Constantine começou a crescer a partir disso.”

Muitas HQs introduziram-me conceitos que moldaram meu modo de analisar, pensar e agir.  Sem dúvidas o Monstro do Pântano está no topo desse ranking, pelos motivos que citei acima e muitos mais. Quem leu sabe. Quem não leu, fica a dica.

Esse é o texto-estreia de outros que virão. A magia que permeia determinadas histórias em quadrinhos precisa ser acordada.

 

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