oAnimaníaco Entrevista: Rosana Urbes, a Vencedora do Annecy 2015

1646
8

Rosana Urbes e oAnimaníaco

Além do talento absurdo, Rosana Urbes pensa o que faz, fala o que pensa e é gente finíssima. Recebeu oAnimaníaco para uma entrevista em seu estúdio na Aclimação, em São Paulo, onde falou sobre seu filme Guida, vencer o maior festival de animação do mundo, trampar na Disney, a vida, o universo e tudo mais. O que se deu é o que se segue:

 

VOCÊ VENCEU ANNECY. JÁ CAIU A FICHA. ISSO TE DEIXOU FELIZ ? Para mim é tão contraditório… Por um lado, fico muito feliz pelo reconhecimento por um  trabalho no qual investi tanto. Mas ao mesmo tempo, acho esse sistema de premiação para as artes tão injusto. Gostaria que encontrássemos outro sistema, que levasse em consideração outros, além do primeiro e segundo colocados. Já falei disso com os diretores do Anima Mundi, que também não gostam da ideia, mas acabaram adotando para aumentar a popularidade do festival. E aumentaram. Talvez isso seja utópico. Talvez o ser humano não consiga viver sem essa ideia de competição.

VOCÊ ESPERAVA QUE ISSO  OU TE PEGOU TOTAL DE SURPRESA ? Durante todo o tempo de execução do filme, tudo que eu pensava era em terminá-lo. Pois não da pra saber que filme você tem até que ele esteja pronto, com música, efeitos, tudo. Especialmente num filme como Guida, que é experimental em tantos aspectos, sobretudo no tema; uma mulher mais velha.

NÃO É O TEMA MAIS RECORRENTE DO MUNDO…Não. Não é. Então eu não fazia a menor ideia. Pensava “quem vai querer ver a história de uma mulher velha ?” O que eu esperava era juntar meia dúzia de amigos e fazer a projeção  em alguma praça…então essa premiação me pegou, sim, totalmente de surpresa.

 

oAnimaníaco entrevista Rosana Urbes_Mondo Vazio 04

 

MAS MESMO COM UM TEMA NADA HABITUAL VOCÊ DECICIDIU CONTAR A HISTÓRIA, E TRABALHOU ANOS NA SUA REALIZAÇÃO  -pausa- Eu acho que era uma história que eu precisava contar.

HÁ QUANTO TEMPO QUE ELA JÁ ESTAVA PEDINDO PRA EXISTIR ? A primeira Guida eu rabisquei quando comecei a trabalhar com animação, coisa de 20 anos atrás. E o filme mudou muito, desde quando eu comecei a produzir. Refiz o storyboard 5 vezes. Ela tinha um interesse amoroso, que acabou caindo. No fim, por conta de toda a receptividade, me parece que essa era uma história que realmente precisava ser ouvida.

A SEU VER, POR QUE A SOCIEDADE NÃO ESTARIA INTERESSADA EM OUVIR A HISTÓRIA DE UMA MULHER VELHA ? A aparência física é uma coisa que afeta a nós todos, mas eu me arrisco a dizer que a mulheres são as que mais sofrem com essa ditadura da beleza. Elas parecem ficar sob o véu de uma ilusão que elas têm que ter uma certa idade, um certo tamanho, um certo tipo físico, para poderem participar do mundo. O que gera desde angústias até distúrbios alimentares, enfim…e a Guida está em paz com a forma física que não é a forma idealizada pela sociedade, que normalmente a colocaria em uma posição de fragilidade e esconderijo, mas ela não só aceita sua real condição, de velha, como ainda abraça essa fragilidade. Ela é quase uma insurgente.

 

 

oAnimaníaco entrevista Rosana Urbes_Mondo Vazio 03

 

 

MAS ISSO SEMPRE ESTEVE CLARO PRA VOCÊ  ? Não tanto quanto hoje. Sempre houve várias coisas sobre as quais eu quis conversar neste filme, mas hoje eu considero esta a mais importante, por conta do medo de não pertencer, por conta da forma física. Acho que isso cria uma ponte de comunicação mais forte do que outros assuntos que também são importantes ( no filme ), como a questão do modelo vivo, que foi o lugar onde eu descobri meu desenho.

VOCÊ COGITOU CONTAR A HISTÓRIA USANDO OUTRA TÉCNICA ? A história sempre esteve aliada à técnica e o inverso. É totalmente simbiótico. Ela é uma poesia visual, que só pode ser contada através da plasticidade do 2D tradicional.

 

oAnimaníaco entrevista Rosana Urbes_Mondo Vazio 09

 

 

oAnimaníaco entrevista Rosana Urbes_Mondo Vazio 08

 

 

oAnimaníaco entrevista Rosana Urbes_Mondo Vazio 05

 

 

oAnimaníaco entrevista Rosana Urbes_Mondo Vazio 06

 

AGORA VEM UMA PERGUNTA DIFÍCIL… Hm

VOCÊ GOSTOU DO FILME ? -pausa- é.. é difícil…Eu mudei o filme até o último minuto… eu cheguei num ponto em que minhas economias tinham acabado, todo mundo tinha achado que eu tinha posto o filme na gaveta… até que minha produtora ( Belisa Proença ) chegou pra mim e falou: Rô, não dá mais. Tem que terminar “. E eu falei; me dá mais um mês que eu fecho. E quando eu fechei essa versão, eu falei pra mim mesma: eu seguro a bronca desse filme. No sentido de ” eu o defendo se for preciso “. Claro que tem cenas em que eu poderia ter feito isso ou aquilo melhor, mas acho que é um filme honesto, que expõe minhas fragilidades como artista. Eu poderia ter ficado mais seis anos trabalhando nele, mas eu fiquei feliz com ele assim. Eu o defendo.

FALANDO UM POUCO SOBRE A CENA DE ANIMAÇÃO BRASILEIRA. COMOS ESTAMOS ? Vivemos um momento interessante, graças a uma política cultural, hoje, há uma cena de animação no Brasil. O investimento no curta metragem autoral é importante porque é onde se testa novas possibilidades visuais. Acho que é apressado esse investimento em longa, em série. Não existe uma árvore sem o cultivo da semente, e corremos o risco de morrer na praia daqui há alguns anos por termos formado profissionais capazes de copiar o modelo americano e japonês, mas não termos tido o cuidado de achar nossa própria cara, nossa própria linguagem gráfica, que é muito rica.

E EM COMPARAÇÃO COM A GRINGOLÂNDIA ? Conheço mais o mercado americano, pois morei, trabalhei lá por vários anos. Quando se fala de Estados Unidos, fala-se de estúdios estabelecidos, de grande indústria. Se você quer ser autor, não sei se é mais fácil do que aqui não.

COMO VOCÊ ACABOU INDO TRABALHAR NA DISNEY? Na época do lançamento do Rei Leão houve um boom na animação e eles mandaram uma comitiva para América do Sul, Europa, procurando talentos. Eu fui entrevistada e aceita. Queria ir pra Califórnia “já que vou para os EUA, quero ir pra Califórnia”, pensei. Mas acabei indo pra Flórida mesmo. O que foi bom porque eles fizeram os filmes mais legais. Enquanto a Flórida fazia Lilo e Stitch, a Califórnia fazia Treasure Planet, Atlantis, uns filmes com os quais não me importo muito.

FOI A REALIZAÇÃO DE UM SONHO ? Não. Eu gosto do Brasil. Eu tenho uma admiração pelo Brasil. Quase como se eu fosse uma estrangeira.

VOCÊ DEVE SER FELIZ -rsrsrs- Sou. Acho que por ter passado 8 anos fora percebi que tem muita coisa legal aqui. Nós reclamamos de coisa aqui que não se tem ideia de como é lá. A saúde por exemplo. Não é que é ruim. Não tem.

AQUELA SENSAÇÃO TOM JOBIM ? MORAR NOS EUA É BOM MAS É UMA M… É. E morar no Brasil é uma m…, mas é bom. Quando eu saí, eu já saí par voltar. Quando eu fui, em 96, eu fui pra voltar. Porque não tinha nada de animação acontecendo aqui. Eu fui para aprender o que era uma estrutura da produção; de organizar as cenas em sequência, de fazer primeiro o storyboard, de gastar bastante tempo em pré produção. A ideia sempre foi sair, aprender e voltar. E venho seguindo o projeto à risca.

 

oAnimaníaco entrevista Rosana Urbes_Mondo Vazio 01

oAnimaníaco entrevista Rosana Urbes_Mondo Vazio 12

 

VOCÊ TEM PREFERÊNCIA ENTRE MERCADO E AUTORAL ? Foi bom trabalhar na Disney. Ver o filme pronto é uma grande experiência. Eu comparo o processo ao de um coral, onde seu trabalho é importante e a experiência, única. Já quando você faz o próprio trabalho, é como um músico em carreira solo. Mas eu tenho uma inclinação de alma maior para o trabalho autoral.

MAS VOCÊ NÃO COMEÇOU NO AUTORAL LOGO DE CARA Eu demorei para  fazer um trabalho autoral porque tenho um senso de responsabilidade de falar com muita gente. É diferente de dizer algo entre amigos em uma mesa de bar. É diferente você fazer uma Mulan e se esconder atrás da Disney, falar que o roteirista era ruim, por exemplo… mas quando você assina um filme, é diferente.

VOCÊ ACHA QUE O MUNDO SERIA UM LUGAR MELHOR SE OS ARTISTAS ATRIBUÍSSEM MAIS RESPONSA ÀS SUAS MENSAGENS? Não sei dizer. Pessoalmente, gosto do cara, da guria, que faz um filme e ve no que dá. Mas para mim, fazer um filme é  me expor muito, por isso levo tanto em consideração o que quero dizer.

EXISTE UM CAMINHO A SEGUIR PARA O ARTISTA DE ANIMAÇÃO ?  Existe. Como a mata atlântica. você pega um facão e vai abrindo caminho – rsrsrs –

 

oAnimaníaco entrevista Rosana Urbes_Mondo Vazio 10

 

MUDANDO DE NOVO…QUAL SERIA A PLATAFORMA IDEAL PARA A DISTRIBUIÇÃO DO SEU TRABALHO ? Hmm o problema do alcance do curta metragem…Eu adoro os festivais porque no fundo eu sou hippie, e o festival é um ambiente hippie, porque você encontra os público, você pode ver as pessoas reagindo, então os festivais são a plataforma ideal. Eu Gosto dessa ideia do cinema como um templo, no qual você entra por alguns minutos e sai dessa nossa realidade de contas pra pagar, etcs. Eu gosto dos encontros. É pra isso que faço os filmes. Para entregar para as pessoas e pegar de volta o que elas te dão. Por isso adoro os festivais. Mas acho que ele alcança um público meio específico. É difícil um festival popular como o Anima Mundi, que popularizou a animação no Brasil.

Outro problema: os festivais não dão dinheiro para os diretores, a não ser que o prêmio seja  em dinheiro. O que e acaba por dificultar a produção. Por não ter retorno financeiro você acaba por brigar por investimento na política cultural do país, pois tem que ser investimento estatal, porque investidor vai querer retorno. O governo tem que investir em produção cultural. É difícil medir o quanto a arte é importante para um país, mas temos bons indícios de que ela é importante

SEU LANCE SEMPRE FOI PELA ANIMAÇÃO OU COMEÇOU COM ILUSTRAÇÃO? Quando criança eu via cinema de animação, mas nem imaginava como fazia. Depois, na adolescência, virei fã inveterada de cinema. Foi quando descobri as animações do Canada Film Board. Depois, quando fui trabalhar na Folha como ilustradora, fui ver uma palestra de um animador da Disney no MIS, que trouxe os originais de Fantasia e alguns outros filmes e mostrou como desenhos eram feitos. E aí eu pirei. E foi quando eu conheci a galera da animação que na época, cabia toda em uma palestra. Todo mundo que fazia animação comercial estava lá. Eu cheguei pro  Haroldo Guimaraes da HGN e ele falou:  ” da pra te ensinar a intervalar “. E foi aí que eu comecei. E eu aprendi animação trabalhando nos estúdios mesmo.

E VOCÊ COMO FÃ DE ANIMAÇÃO ? Eu sou completamente maluca pelos filmes do Myiazaki. Acho que é o que há de mais incrível em filmes de animação. Sou muito fã do Richard Williams. Tive a sorte de conseguir ver o curta dele em Annecy agora. Eu aplaudi de pé. Foi sensacional. Eu falei pra ele que ele deve ter demorado pra fazer e ele 

-não… agora tá fácil. Saiu rápido, eu estou animando há 64 anos. Agora eu entendi…

-Mas entendeu mesmo ? agora acha que não perde mais ?

-Estou saudável

E foi incrível ouvir ele elogiar meu trabalho

 

oAnimaníaco entrevista Rosana Urbes_Mondo Vazio_16

oAnimaníaco entrevista Rosana Urbes_Mondo Vazio 15

 

QUEM MAIS ? Tem uma ilustradora austríaca que eu gosto muito Lizbeth Zwerger, que foi um grande achado na minha carreira…tem essa coisa da diferença entre os desenhos dos caras e das mulheres. Como os estúdios são predominantemente masculinos, as referências que me passavam eram todos de artistas homens. Então foi um pilar muito importante, me ajudou muito a achar meu trabalho pessoal.Eu gosto de desenhar personagens. Não me preocupo muito com perspectivas, etcs.

E AGORA? Eu tenho dois projetos de curta que eu estou começando. Tenho um projeto de longa que é mais uma ideia do que um projeto. Tem um projeto de exposição da Guida, que mostra  o processo de criação do filme…tenho vários… agora vou fazer um livro,  mais ainda não sei se o Corcunda de Notre Dame ou A volta ao mundo em 80 dias. Pedi o segundo. Eu adoro ilustrar livros.

MAS E ENTÃO? ILUSTRAÇÃO OU ANIMAÇÃO ? Ah, nesse caso, sou a Dona Flor ( e seus dois Maridos ).

  GUIDA por ser assistido aqui

 

 

Comentários