Aquele Desenho Daquele Sapo que Cantava

 

Há não muito, fui a uma festa. Os convidados, além de ubriacos, estavam saudosistas. Abriu-se a rodada de desenhos antigos e um  filisteu em particular, tão entusiasta da conversa quando desavisado da minha condição de doente por desenhos, perguntou:

 

– Você se se lembra…
Eu:
– Lógico!
Atônito, secundou:
– Mas eu ainda nem falei q…
– Já falei que lógico.

O cidadão, com relação a desenhos ao menos, não tinha lá muita cultura, pareceu-me, mas tinha finura, pois o desenho em questão era “One Froggy Evening “, mais conhecido na idolatrada salve salve por “aquele desenho do sapo que canta”, um clássico de 1955, dirigido pelo mestre Chuck Jones .

 

Michigan J. Frog – 1955 – One Froggy Evening from Ikarus on Vimeo.

 

Um peão trabalhando na demolição de um prédio antigo acha uma caixa dentro de um bloco de concreto que lá foi posta quando o prédio foi fundado. Ao abrí-la, vê um sapo (vivo) com uma bengala e uma cartola que salta pra fora e  começa a cantar. O cara, lógico, pensa em ficar rico agenciando o batráquio. Isso, antes de descobrir que o sapo não cantará para mais ninguém senão para ele.

A menção do desenho fez sucesso na roda e o povo todo se inflamou. Houve alvoroço. ” O que levara o sapo a agir daquela maneira? ” ” Por que o sapo só cantara para quem e quando queria? ” Houve especulações:

1) O sapo seria como alguns amigos que temos, super talentosos, mas que, em grau de frequência variável, mesmo sob elogios e implorações, se recusam a entreter a galera. Os exemplos mais clássicos estão entre os que tocam viola (  tocaí, ô meu !) e desenham ( faz só uma coisinha bem simples ) . O diagnóstico habitual é “estrelismo”. Eu em, particular, acredito que não o façam, no geral, porque não estão com vontade.  Não que isso seja razão suficiente para aplacar os ânimos da Gestapo.

2) O sapo seria como essas gentes que quando estão num lugar, são assim, noutro, assado. E nos confundimos diante dos relatos dos feitos do fulano:
– Ele fez tal coisa sim. Eu vi!
– Magine. Conheço o cara há milianos. Ele nunca faria isso…

3) O sapo é um filho da puta.

É incrível como as pessoas ainda se lembram desse desenho. Acredito que a popularidade  se deva ( além do timing, animação e trilha sonora perfeitos) ao fato que todos podemos nos relacionar com a história, pois todos conhecemos alguém que sofra da “síndrome do sapo que canta”, em suas diversas interpretações. Seja a prima que na frente da família é a pudica que na balada solta a franga ou nossos amores de outrora, que tanto nos encantava e não raro a nós somente, e que apenas após nos curarmos da doença da paixão passamos a vê-los verdadeiramente, como todo o resto sempre os vira.

Mas a popularidade desse curta ainda me é incrível. Sobretudo porque nunca houve outro desenho com o sapo. Nem nome ele tinha. Mas muitos anos depois do lançamento do desenho, o sapo ganhou a alcunha de “Michigan J. Frog “, nome inventado por Chuck Jones, de pacovás cheios, resultados de fãs, inconformados que o sapo que tanto curtiam não tinha um nome. A denominação veio de uma das músicas do desenho, ” Michigan Rag ” , escrita por Chuck Jones e Michael Maltese ( roteirista do desenho)

Para mim, o desenho é uma fábula sobre a ganância, como ela tudo consome e como se perpetua através dos séculos. Para a maioria dos convidados da festa, Michigan J se enquadra em algumas das duas primeiras categorias citadas lá em cima.

Já para outros, como o cidadão desavisado, não tem jeito. O sapo é um filho da puta mesmo.

Logo menos tem mais

 

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