5 Motivos para o Sucesso do Demolidor do Netflix

2525
2

 
Daredevil Cast

Levava eu minha vidinha quando, de repente, me percebi tropeçando  em relatos espalhados em Twitter e Facebook: A nova série do Demolidor é foda, cabulosa, GENIAL. No começo, pensei “coisa de marvete embasbacado”. Mas daí veio uma amiga, que nem de quadrinhos gostava, e me disse ser verdade, que a série era mesmo foda, cabulosa, GENIAL.

Isso me forçou ao impensável: abrir mão de Game of Thrones e mudar de série ( sim, hoje em dia, só trocando uma por outra, pois a vida de pai, artista, marido e empreendedor não é compatível com mais de uma série por bimestre ). E lá se foi o GOT. Mas valeu a pena, pois ao final do segundo episódio, já estava viciado e, como de praxe, racionalizando sobre as causas e os efeitos do imponderável sucesso;  sobre os acertos que suscitaram elogios advindos dos dois lados da nerdosfera. Eis o que me parecem ser os prováveis responsáveis:

 

1) O Storytelling

Falou em história boa e todo mundo pensa em trama. Mas como Walt Disney já dizia, para entreter o povo, a história pouco importa. O que interessa é como ela é contada.

A série do Demolidor segue essa cartilha.  Ninguém termina o episódio chocado porque Matt ficou cego no acidente. Ficamos boquiabertos pela forma COMO isso é mostrado;  flashbacks, flashforwards, momentos aparentemente desconexos que farão sentido lá frente. Uma narrativa típica dos quadrinhos mensais da DC e Marvel ,que, por motivos mercadológicos, nunca apresentam grandes revoluções nas vidas dos personagens ( e quando o vazem, seja por morte,  casamento ou espinha partida, são por motivos mais mercadológicos ainda ).

Assim sendo,  o próprio  Stan Lee sempre ordenou aos roteiristas;  ” não mudem muito as circunstancias, pois as histórias só devem apresentar a sensação de mudança “. É um pensamento que permeia toda a indústria. O resultado;  para continuarem atrativos, os quadrinhos mensais se especializaram em COMO contar a história, dando importância reduzida ao desfecho da mesma.

O Walt manjava…

Mas as semelhanças com os quadrinhos param por aí.

 

2) A Adaptação

Fazer uma boa adaptação dá um trabalho dos infernos: tem que ser  fiel ao material original para que se evite as ameaças de morte dos fãs mais hardcore e, ao mesmo tempo, apetecer ao grande público que nunca vira mais gordo.

E toda aquela  gente que aparece nos créditos precisa comer. E como os produtores comem muito caviar,  não raro, a obra também deve servir de base de franquia, sobre a qual um novo império de novas produções e badulaques será erguido.

A empreitada é tão insana, que vejo adaptações desse naipe como um tipo de arte em si.

Mas à parte das infindáveis decisões e fórmulas para fazer um filme desse funcionar, considero que o ingrediente do sucesso parte de um conceito simples: quanto menos fiel ao material original, melhor. Já escrevi um post sobre isso. É algo em que passei a acreditar depois da avalanche de adaptações dos quadrinhos que assolou Roliúde nos últimos dez anos. As histórias que se saíram melhor foram aquelas que se valeram das virtudes da nova mídia em questão, defenestrando os detalhes da original que, por mais característicos, quando transpostos à tela grande, só atrapalham.

A série do Demolidor segue esse padrão. Bebe na fonte, pega o que funciona para a televisão de 2015 e joga fora o resto. Um exemplo simples é a ambientação. A série se inspira no alto contraste dos quadrinhos da época de Frank Miller. O apartamento de Matt não é escuro porque é mais bonito, mas porque ele é cego.  Contexto, mano, contexto…

 

Demolidor_Cinematografia

Clique em cima pra ver grande

 

Mas o maior acerto na adaptação foi ajustar a narrativa aos preceitos das séries modernas. Em Demolidor, cada episódio serve para levar a trama para frente, sem gordura, nem barriga, como em Breaking Bad. E  personagens morrem imprevisivelmente, como em Game of Thrones.

E, ao que parece, continuam mortos.

 

3) O Drama

Drama não é choro, ou fortes emoções. Em história, drama quer dizer conflito. E vai ter drama assim lá na cozinha do inferno.

É conflito pra cá, conflito pra lá, com outros, com si próprios. As confissões do herói  ao padre são tão dramáticas quanto seus encontros com o antagonista. Esse, por sua vez, tem mais problemas que a delegacia de Osasco. É tanta dor que cabeça que quase nem precisa de um herói ( afinal  “ninguém chega ao topo sem uma multidão não almeje derrubá-lo” ).

E por falar no demônio:

 

4) O Rei do Crime

Demolidor_Wilson Fisk

Clique em cima pra ver grande

 Wilson Fisk é diferente do Coringa e Lex Luthor  por um motivo desconcertante: ele demonstra simpatia. Vez por outra ele se depara com algum sentimento nobre ( que exibe dificuldade em expressar ), ou quando se sente encurralado por um argumento contrário, tenta se explicar,  antes de partir pra ignorância. Atitude impensável no vilão convencional ( de quadrinhos, não de Brasília ).  Ele quase nos engana. QUASE. Porque o sentimento nobre dura pouco, e porque, claro , ele está disposto a matar.

Frank Miller dera alguma profundidade ao personagem quando era roteirista dos quadrinhos lá nos anos 80. Transformara o Rei do Crime de um vilão bobo do Homem Aranha em um empresário de fachada respeitável, mas de alma deplorável. Eram tempos de Wall Street, e o povo americano começara a questionar as verdadeiras intenções das corporações e de seus executivos, transformando-os em ótimos vilões para HQs e Roliúde.  Foi nessa mesma época, inclusive, que Lex Luthor virou um empresário mal feitor ( antes, era cientista maluco ).

Mas o Fisk de Miller é bem raso perto desse novo personagem.

Wilson é humano,  um carrasco por quem temos simpatia. Quem imaginou que o Rei do Crime seria um dia o melhor vilão da Marvel ? Se há um ano alguém sugerisse essa possibilidade, iria pro pinéu. Ou pior, tomaria um unfriend em massa nas redes sociais.

 

5) Os personagens

A discussão entre trama e personagem é mais antiga que o Calígula. Sério. Aristóteles achava que a história era mais importante. Os românticos dos século 19 achavam que a trama servia para trazer à tona as principais características do que realmente importava: o personagem.  A discussão continua hoje em dia. Inclusive com o argumento de que os dois são a mesma coisa.

O assunto é complexo. Envolve as diferenças entre personagem x caracterização. Não irei tão longe. Em termos simples, creio que Demolidor optou pela estética dos românticos. A trama não existe para nos deixar chocados, ou explodir nossa cabeça com plot twists geniais. Ela tem o único e específico fim de colocar os personagens sob pressão. Pois só compramos um personagem quando o conhecemos de verdade. Em suma; quando tem que tomar uma decisão  diante de uma situação difícil.

 

Demolidor_Personagens

Clique em cima pra ver grande

 

Nos quadrinhos era diferente ( ao menos, nos arcos mais conhecidos  ). O importante era a trama. Achei a decisão da mudança muito sacada. Nos quadrinhos é possível ir, voltar, parar, rever. Em TV é diferente. Mesmo podendo tudo isso hoje em dia, a proposta é outra. E o grande público não gosta de submeter a história ao escrutínio como o nerd de quadrinhos médio.

Assim, optou-se por conectar todos os personagens com uma única questão central, que diz respeito a qualquer ser humano: a busca pela verdade.

E claro, seguindo o exemplo da jornada do herói, todos os personagens chegam arqueados ao final da primeira temporada.

Existem outras coisas: música, diálogos, interpretações, suspense, coreografias das lutas… mas acho que as questões citadas acima são as mais básicas, sobre as quais todas as outras se sobrepõem.

Foi um longo caminho para o Demolidor chegar onde chegou. Teve que passar por isso:

 

daredevilmovie

 

e isso

Daredevil Hulk

 

e mais isso

Daredevil 70's

 

Tô falando que adaptação é arte….que venha a segunda temporada.

Logo menos tem mais

Comentários