Por Que Não Quero que Minha Filha Assista Filmes de Princesas da Disney

Mulher só serve para ser o troféu do macho. Para ser sequestrada e virar incentivo para o herói embarcar numa aventura qualquer. Vencidos todos os perigos, o macho pega a gostosa. É assim que o jogo funciona nos games, ao menos, em sua extensa maioria.

Esse tipo de situação é na verdade um recurso de roteiro chamado Donzela em Perigo. Não é exclusivo em video game e já existe há muito tempo. ( Perseus salvou Andromeda de um monstro do mar já faz uns 4000 mil anos ).  Mas é uma praga em nossa sociedade que, diferente da grega, nunca colocou a mulher em destaque. Embora os gregos  tivessem lá suas histórias de donzelas, também tinham uma mitologia povoada por deusas foderosas, coisa  inexistente na nossa tradição judaico cristã. Havemos só Ave Maria, a virgem imaculada,  o oposto de uma deusa foderosa.

 

Uma galeria com a representação das DONZELAS EM PERIGO através da história. A vencedora é a Princesa Peach, do Mario. A incompetente conseguiu ser capturada em 13 dos 14 jogos em que participou como “protagonista”. 

 

O PROBLEMA DO CONCEITO

 

A ideia de Donzelas em Perigo apresenta a mulher incapaz de escapar sozinha, sempre precisando do resgate de um macho.

Mas embora nefasto, é quase risível por sua simplicidade.  Existe uma variação água com açúcar do conceito que considero quase hediondo, porque tem como alvo meninas muito jovens ( entre 2 e 8 anos, segundo o departamento de marketing ), e mascara o machismo com tanta purpurina que fica difícil ver além. Me refiro às princesas da Disney.

É indiscutível que Walt Disney tenha dado o pontapé inicial para a criação do maior  império de entretenimento da história. O que é menos discutido é como o fez: na base da carnificina, desmembrando os contos de fadas, tornando-os mais  “palatáveis ” ( a versão original de Branca de Neve é  dura como a vida).

Walt infantilizou a cultura e, no processo de popularização para as massas, removeu todo o perigo contido nas histórias,  criando assim, a ilusão da vida; o esplendor sem a bagunça. Esse é o cerne do trabalho de Disney, sobretudo quando ainda tinha as mãos na massa, entre 1930 e 196o e tantos ) . Depois de morto ( e congelado ), os capangas corporativos continuaram tocando o barco, mas com ainda mais voracidade e menos imaginação ( pois isso, o cara tinha ). E cá estamos, onde chegamos.

 

Princesas Disney

Seja boa, seja bonita e agarre o seu príncipe. Sem ele, você não existe

As princesas Disney são as moças de família criadas essencialmente para fazer fazer um homem feliz e, pior, serem felizes ao lado dele. São criaturas cuja existência não existem a menos que encontrem suas caras metades. O que pode ser mais cruel ?

Sem contar a disseminação de uma visão simplista em um mundo cada vez mais complexo. Claro, não foi nem Walt nem sua empresa que inventaram essa visão de mundo; vide Roliúde  (um sistema com o qual o próprio Walt pegava mal ).   Mas nenhuma outra empresa tem um diálogo tão direto e incisivo com nossas crianças.

Pode parece excesso de zelo de um ” pai fresco “( minha filha, Liz, só tem oito meses ), mas depois de absorver isso durante seu período de formação, que tipo de ideia ela fará da sociedade ? Mesmo que adote o papel de executiva  liberada, não passará de uma fantasia, poi lá no fundo, haverá a programação irremovível:  depender pratica e emocionalmente de um homem. Exagero? Quem quiser um monumento, que olhe ao redor.

É por isso que não quero que minha filha cresça rodeada de histórias de damas em perigo. Pior ainda desse tipo, disfarçada em inocência cor de rosa.

Mas acredito em saídas. Semana passada, por exemplo,  recebi uma dica da sobrinha: um livro da DC Comics, baseado no princípo Girl Power, que passa mensagens positivas de bravura, verdade e força. Não estou aqui para fazer propaganda. Nada contra. Espero um dia estar, inclusive. Mas não é este o caso, hoje. Acontece que o arquétipo da super heroína já tem a ver com o que acredito: Vai lá e force a vida a fazer sentido, porque você tem poder. Não tem nada ver com igualdade entre sexos, ou toda papagaiada dita feminista que se lê em qualquer folhetim. Tem a ver com responsa.

Super legal casar e ter família. Para isso a mulher precisa de um homem, pois ainda não criaram uma alternativa para criar uma família melhor que o casamento, mas para isso a mulher não precisa deixar de ser dona de seu próprio destino.

girl power girls strong kind mera brave super heroines supergirl super-strenght wonder woman truth

Para mim, as super heroínas funcionam porque sou fã da DC, conheço as personagens, trabalho com isso e tal. Mas há alternativas.  Escrevendo esse texto, me lembrei do trabalho da fotógrafa Jaime Moore, que clicou a filha, travestida de grandes personagens femininas da história. A menina com certeza aprendeu alguma coisa. Ou duas:

Jaime Moore_Not Just a Girl

 Jaime Moore fotografou a filha tavestida de mulheres que fizeram grandes feitos. Mais fotos em sua página, no ensaio Not Just a Girl 

E do livro: The Princess Who Saved Herself ( acho que ainda não saiu em português )

The Princess who saced herself

Para os fãs de games, fico devendo um jogo incrível, cujo mote é semelhante à do livro supracitado. Não me lembro do nome e não consegui encontrar a tempo da publicação do post. Assim que encontrar, posto aqui como adendo. Se alguém aí soubre, por favor, avise.

Agora entendo o que sempre me disseram: educar da um trabalho do cão e o gostoso mesmo é ser avó.

E a você, Liz, bem, desculpe que o pai vai te regular os DVDs da Disney. Talvez libere um aqui outro lá. Mas nada de exageros. Parafraseando meu pai ( Deus do céu, aconteceu ): um dia você ainda vai me agradecer.

Logo menos tem mais

 

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