Vingadores: Um Sonho Americano ou; Como a Disney Será Dona de Seus Filhos

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Dizem do Americano gostar de sentar a porrada nos mais fracos, ser patriota, arrogante e cheio de si. Assim como o Hulk , Capitão América, Thor e o Homem de Ferro, respectivamente. Eles formam os Vingadores e o novo filme é dubalaco porque, entre outras, esclarece; sob a devida liderança, características negativas são pequenas, ante força de vontade e talento, quando a busca é pelo sonho. Eis a parte onde a realidade e ficção encostam os ombros.

Mas que povo mercantil, né, benhê ?

Roliúde à parte, a história dos Vingadores ilustra a persistência no impossível e a vontade de vender vender vender. Vender de fato para mim, é a base sob a qual os EUA foram erguidos. ” um povo de comerciantes que saiu da Europa e fundou uma nação na qual pudessem comercializar sem o governo encher o saco”. Essa é, em tradução livre, a definição de Alexis de Tocqueville, que em 1831 saiu da França para tentar entender a América e voltou com tal explicação. Matou na mosca ao meu ver. A prova é a brasileirada indo a Miami fazer compras e voltando, embasbacada, com o modelo de vendas dos caras, acionado em moto contínuo. A parada da galera é o mercantil, todo o resto vem depois. Inclusive o tal do sonho. É o mercantil que torna o sonho possível. Os Vingadores são prova disso:


Levou décadas até que a Marvel conseguisse fazer um filme decente com seus heróis, mas ela nunca abriu mão do sonho. Tudo, claro, financiado pelo esquema “vendo a alma de mamãe ( em bom estado) “

Como criar uma marca bilionária em trinta anos ?

Sempre fui fã dos heróis Marvel ( embora DC de carteirinha ) e passei parte da infância e adolescência no escanteio social por causa disso. Ou talvez o contrário; talvez falhasse o social em grande estilo e me escondesse da desgraça entre quadrinhos. De qualquer forma, esses caras sempre foram parte integrante da minha vida, e por anos ouvi a Marvel dizendo ” venha ver que belo filme que fizemos “ e eu ia e via filme belo coisa nenhuma. Ao contrário; saía do cinema com vergonha alheia e própria também. Se o boy do colégio me visse saindo do cinema, eu seria humilhado, em sopapos e comentários, porém, tendo gasto os cruzeiros de altos lanches numa bomba dessas, eu bem que merecia.

Mas aí chegaram os anos  90 e o mercantilismo perdeu a mão. Mickey Mouse, que sempre saíra dos desenhos para virar boneco, disco e parque, agora disputava com a Barbie e tantos outros o monopólio de mercados que nunca antes foram os seus. Todos eles e outros tantos obedeciam cegamente ao  Deus-Mercado, que descera do Olimpo Wall Street e proclamara: “Deveis estar em todos os lugares ou estarás em lugar algum , e a América foi tomada pela febre das aquisições: a Disney comprou a ABC para desaguar sua produção, A Time Warner comprou  a Turner Broadcasting  e passou a promover suas revistas e filmes na CNN. George Lucas comprou ações da Hasbro e depois licenciou para a mesma seus bonecos Star Wars e por aí foi.  O entretenimento virou a nova indústria, e a Marvel, uma editora de quadrinhos que vendia seus heróis a um dólar por revista, achou a brecha necessária para figurar seus personagens em outras mídias de maneira decente, fosse através da FOX, Lionsgate ou CAPCOM. E hoje, seus heróis mais poderosos, os Vingadores, são marca mundialmente conhecida e filme supimpa. Mas hoje também, a Marvel pertence à Disney.

Para (re)lucrar em cima de desenhos antigos, a Turner lançou a Cartoon Netwrok. Chegaram outras networks de cartoons e fomos nos afeiçoando à nova vida até que BANG! Nos cercaram por todos os lados e agora nossos filhos são catequizados desde o berço, inclusive por genéricos, Doras e Diegos,  ou representantes nacionais, igualmente horríveis, como a Galinha Pintadinha.

Sendo fã, sempre torci para a Marvel conseguir produzir algo decente seja em animação, seja em filme. Há uma década que eles vêm acertando e os Vingadores foi o acerto final. Ou o inicial, pois de tão bom,  o considero um divisor de águas. Qualquer contador de histórias atento que tenha visto o filme percebeu: daqui para frente, as coisas serão diferentes; “super heróis” pode vir a se tornar ser um sub gênero sem nada dever a ficção científica, drama ou faroeste. Acho que o mundo está preparado inclusive para ver tais heróis figurando em qualquer  tipo de história, até drama ou faroeste.

Tá. Mas e o filme ?

Quem buscar diversão leve no filme vai achar, fã da Marvel ou não, pois o roteiro é de primeira, tem ação a dar com o pau, conflitos críveis entre os personagens, piadas engraçadas. Tem atores bons até. Quem gosta de ver o além; como o Capitão América representando não o patriotismo, e sim o sonho,  e com isso unindo gente de lugares e visões de mundo diferentes, e traçar um paralelo com a realidade, vai encontrar isso no filme também.

Já quem quiser ver a trajetória de uma grande casa de ideias engolfada por uma gigante do entretenimento e reduzida uma empresa que cria personagens e não histórias, também vai. Hoje, acho mais fácil que a Marvel produza um filme bom do que um quadrinho decente. Mas não é acidente. Só efeito colateral. Pois além do sonho e do mercado, outra coisa na qual os americanos são imbatíveis é na propaganda. Seu modelo de negócios é tão sedutor que a maioria dos estúdios de animação ou quadrinhos ou artistas em geral ao redor do mundo querem fazer parte do mesmo esquemão. Sem se dar conta que, talvez, acabarão em outro tipo de negócio. Como os pais que vêem Buzz Lightyear ou Woody como entretenimento inocente apenas, e não a tentativa de uma corporação ganhar a devoção consumista de seus filhos desde o berço. Eu sei o quanto um personagem pode entrar na sua cabeça e ficar lá para sempre. Esses caras sabem mais. Não há inocência. Mas ao olharmos para a cara sorridente de Woody, fica difícil acreditar.

Enquanto via o filme, a zona de guerra na qual Nova Iorque foi transformada…enquanto via todos aqueles prédios caindo, me perguntei. E os cadáveres ?

Eis o modelo americano: permite a realização do sonho, mas esconde os corpos.

Esse povo é qualquer coisa…

 

 

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