Bob Cuspe Traidor do Movimento ?

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Eu sempre fui punk. Desde o berço.  Mas foi só no começo dos 80 que eu, ainda menino, seria apresentado à estética do movimento; os moicanos, alfinetes, jaquetas e coturnos. Na mesma época, garotos mais velhos que nós pivetes, nos assombravam com histórias de porrada e quebra pau entre punks, carecas do ABC e várias outras faunas que então infestavam a Paulicéia, cuja capital era a Galeria do Rock.  Tais relatos incitavam nossa mente a fantasias, quase sempre primorosas, quando o mundo é infantil.  Até que veio o Angeli e esfregou o seu retrato da parada em nossas caras. Um retrato ainda melhor do que pintávamos.

Amei o Bob Cuspe logo de cara, pois como disse, desde o berço não queria a maioria do que a sociedade tinha a oferecer;  Disney, Bambalalão,  Sucrilhos, Pirocóptero… achava tudo babaquice. Ostracizado por normais, me sentia o lobo da estepe, no submundo, como o Bob. Claro que eu tinha meus momentos Super Homem e G.I.Joe, mas no fundo,  quem falava diretamente à minha cabeça era o punk catarrento, que embora em preto e branco e papel jornal, ou talvez por isso até,   soava real, enquanto o trolóló imperialista americano, me parecia cada vez mais vazio, apesar de seu poder de sedução technicolor.

Bob Cuspe me ensinou que personagens de quadrinhos eram possíveis em São Paulo,  por coincidência ou não, em um período em que a cidade estava prestes a adentrar a sua hora mais escura. A Paulicéia tornava-se lentamente um monumento à falência do sonho da cidade grande;  degradação, violência,  barbárie. Bob Cupse era o capitão de uma galera que ilustrou esse período de forma brilhante,  regando tudo a palavrões, drogas e fuque fuque. Tudo muito visceral. Era a Chiclete com Banana.

Foi então que descobri; ser punk não significava zanzar pela paulista adornado de espinhos.  Tampouco cuspir na classe média.  Punk significa um certo jeito de fazer as coisas: O seu jeito, e que se dane o resto.  Faculdade nunca terminei,  currículo, nunca mandei, curso de escrita, de desenho, nunca fiz. E nada impede que eu pague minhas contas escrevendo e ilustrando.  Quem me deu a fita de que isso era possível, em um mundo onde o certo colorido era contrário, foi a Chiclete com Banana, que por sua vez aprendera a filosofia punk com o Pasquim e Fluide Glaciale, que a praticava antes do termo punk ser cunhado sequer. O que me leva a crer; punk é uma filosofia, um estado de espírito.

A Chiclete chegou a vender mais de 100 mil exemplares  numa época em que quadrinhos era passatempo marginal, sem essa mamata de direito a resenha na Ilustrada. Tratar dos fatores responsáveis por tal venda estratosférica não é a proposta desse post. O que quero é apontar a audácia de decidir fazer as coisas ( sobretudo ) quando o resto sugere o oposto. Isso é  punk.

Fui ver a exposição Ocupação Angeli no Itaú Cultural ( o que catalisou este artigo ). A exposição é ótima e recomendo com fé.  Capas, originais, rascunhos, charges e entrevistas para entreter quem quer que seja e deleitar quem seja o fã.  Deleitei.

Também achei divertidíssimo ver a classe média na qual  Bob Cuspe sempre catarrou o achando “lindo”, “o máximo” e “bárbaro”.  O que de prima vem à mente é ” Bob Cuspe é um miserável traidor do movimento”. Traiu coisa nenhuma. Só foi tragado, com seu criador e tudo, para dentro da enorme máquina do mercado cultural. Mercado raramente  feito por, e menos ainda para cultos, e que não poupa nada nem ninguém.

Foi nesse andar da carruagem que  Angeli saiu do marginal alternativo e virou mainstream de galeria e revista chique. Acontece nas melhores famílias.  A maioria acaba desenvolvendo a promiscuidade habitual entre o  que recebe e o que paga o pão.  Angeli não.  Do mesmo jeito que hoje, quem quiser se lembrar dos anos 80 pode (re)ler suas histórias na Chiclete com Banana, no futuro, quem quiser se lembrar do espírito da era atual,  poderá apelar para uma compilação de suas charges políticas. Eu acredito que quando se quer captar o estado de espírito de uma era, deve-se sempre ler as charges políticas, e não os livros de história oficiais, pois esses não guardam o estado de espírito do povo.

Seja em publicação de direita, esquerda, centro, cima, baixo ou até em Espaço Cultural de banco. A mensagem é clara: o movimento não morreu. Esse é o espírito. Angeli, valeu véio…

 

 

 

 

 

 

 

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