oAnimaníaco Entrevista: Sérgio Nesteriuk

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Nem só de animadores se faz uma indústria da animação. É necessário ainda produtores, investidores e uma porrada de outros profissionais.  Dentre os quais, os estudiosos;  gente que entenda da linguagem para produzir material de consulta que a tal porrada de outros profissionais  tanto precisa.

Sérgio Nesteriuk é um deles.  Professor, orientador e consultor de várias coisas  relacionadas a animação. O conheci na palestra que deu em ocasião do lançamento de seu livro ” Dramaturgia de Série de Animação”.  Fiquei tão impressionado com a qualidade de seu trabalho e dedicação que lhe escrevi pedindo uma entrevista, que ele foi muito gente fina em conceder.

E com orgulho, inauguro aqui a seção de entrevistas de oAnimaníaco.  Se você escreve, produz, investe, anima ou se interessa em qualquer âmbito pelo cenário da animação brasileira atual, vai gostar.

Como você se envolveu com animação ?

Acho que como a maioria das pessoas, primeiro como espectador. Comecei vendo os desenhos animados que passavam na televisão e aos poucos fui tendo contato com outras animações, principalmente por meio do extinto programa “Lanterna Mágica” e de algumas mostras e festivais. Isso fez com que abrisse meu horizonte em relação à animação.

Você desenha ?

Todo mundo desenha, mas me considero péssimo desenhista. Talvez por isso tenha me direcionado mais ao roteiro e à dramaturgia.

Enquanto lia seu livro, tive a impressão que você é, ou foi, fanático por televisão. Procede?

Fanático, acho que não… Minha infância e juventude foi “pré-Internet”, por isso acho que assisti bastante TV – como muitos colegas de geração. Hoje, assisto muito menos TV, pois também vejo animação e conteúdo audiovisual em cinemas, mostras, Internet, etc. De toda forma, sempre procurei ser seletivo em relação ao que assisto – nunca fui de “assistir por assistir”.

Quais já foram seus desenhos favoritos ?

Nossa… seria uma lista enorme. Alguns deles, hoje, não tenho mais o mesmo apreço – são, talvez, lembranças saudosistas. Outros ainda continuo gostando, como Gato Félix, Pantera Cor de Rosa, Mister Magoo, etc.

E hoje ?

Hoje procuro assistir a maior quantidade e diversidade possível de desenhos, independentemente de meu gosto pessoal. Assim, procuro analisar aspectos positivos e negativos em todos eles. Sempre tem alguém me passando alguma dica de algum desenho animado ou curta em animação que eu não conhecia. Acho que prefiro buscar sempre coisas novas ao invés de permanecer acompanhando as mesmas.

Como você assiste televisão hoje em dia ? ( baixa, aluga, cabo netflix ? )

Principalmente por cabo, DVD e Internet (youtube e sites, como o do National Film Board).

Como surgiu a ideia do livro? O processo é mesmo um parto?

A ideia do livro surgiu a partir de uma conversa com o Rune Tavares, quando estávamos conversando sobre a consultoria de dramaturgia para o ANIMATV. Percebemos a carência de títulos sobre animação em língua portuguesa e o Rune sugeriu o livro e me incentivou bastante.
Por mais que você já tenha experiência e conhecimento, escrever um livro é sempre um processo bastante complicado. Principalmente, quando você tem que conciliar sua redação com outras tantas atividades.

Já existe um mercado brasileiro de animação ?

Sempre existiu. Nos últimos dez anos, entretanto, ele vem crescendo como nunca antes. O desejo é que possamos passar de um mercado para uma indústria da animação, sem deixarmos de lado a produção autoral – importantíssima fonte de experimentação e criatividade.

Quais as melhores iniciativas tomadas para seu fomento, até então?

O fomento da animação no Brasil esteve ligado, na maioria dos casos, a iniciativas públicas, seja nas esferas federal, estaduais ou municipais. É claro que sempre vai haver espaço para mais incentivos, pois temos inúmeros animadores talentosos e que precisam de apoio. Aguardamos ansiosos novas ações do Programa Nacional de Desenvolvimento da Animação Brasileira, lançado no final de 2008.
Além disso, com a ampliação de nosso mercado, novas alternativas vão surgindo como os modelos de coprodução internacional de séries, por exemplo.

Elas funcionaram?

De uma forma ou de outra, toda e qualquer iniciativa a favor da animação funciona. Todavia, é preciso pensar em ações conjuntas e integradas que possam balancear os diversos aspectos atinentes à animação brasileira, como o apoio aos estúdios nacionais, editais específicos para a produção de curtas metragens em animação e programas de formação e aperfeiçoamento de animadores, por exemplo.

Como você se envolveu com o ANIMATV?

Por um convite inicial para a consultoria dos projetos selecionados. Depois da consultoria, continuei com o vínculo até o lançamento do livro – que está disponível para download gratuito no site do ANIMATV.

 Você tem preferência por alguma técnica de animação em particular?

Não.

Tem algum projeto na gaveta ? (livro, roteiro, curso)

Continuo dando aulas e com a consultoria de alguns projetos de curtas, séries e longa. Alguns com perspectiva de realização em médio prazo outros que estão dependendo de seleção ou apoio. Também estou começando a trabalhar no projeto de um livro com perspectiva de lançamento para o próximo ano.

Que tipo de série animada você vê as pessoas assistindo daqui a dez anos?

Acredito (e espero) que aconteça uma diversificação cada vez maior de séries de animação, tanto em conteúdo quanto em forma.

O seu livro trata sobre séries. Você tem muito contato com animação não comercial? Vai a festivais?

Dificilmente alguém começa a fazer uma série sem ter uma experiência não comercial antes. O curta metragem, como disse, é a grande escola, e procuro assistir o máximo possível – no mínimo um novo por dia.

Eu tenho um amigo cujo amigo que emplacar o próximo Bob Esponja. Tem alguma dica?

Não tentar ser o Bob Esponja. Cada série é única e uma série “tipo” alguma coisa, nunca será igual ao original que tenta copiar muito menos algo com uma identidade própria.

O livro do Sérgio esta disponível através da Creative Commons:

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