Aquela Vez que o Super Mouse Cheirou Pó ou; Bakshi, o Pai de Todos

Planeta: Terra. Cidade: Tóquio.  Er, quero dizer.. São Paulo. O ano: 1988. Como de hábito, saio do (re)formatório, chego em casa e ligo a TV antes mesmo de dizer alô à mãe. Como de hábito, Silvio Santos mudara a programação tudo de novo, e não encontro o programa que procuro. Mas a providência dá o ar da graça, e me mostra a enorme diferença entre um desenho feito com amor e os outros, feitos para vender produtos. Eu poderia tentar explicar o gritante contraste entre a demência e anarquia da  novidade contra  o costumaz da época usando palavras,  mas imagens dizem mais:

O normal era isso:

 

E eis que de repente:

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A obra em questão ? As Novas Aventuras de Super Mouse , de 1987. É. Aquele mesmo; o rato seu amigo que salvava do perigo, geralmente espancado o patife Gato Gatuno. Todo mundo conhece a versão clássica, da década de 50. A série dos anos 80 era uma releitura, mas tomava certas libredades. Certas, não; TODAS.  Tudo envolto em surrealismo e bizarrices que fizeram as cabeças dos acostumados a He Man e Punky Brewster rodopiar .  O nome do homem por trás disso, o responsável por esfregar na nossa cara a defasagem entre progresso e tradição, estava nos créditos: Ralph Bakshi

Cê deve tá de sacanagem…

Bakshi era guerreiro. Assim na vida assim no trampo. Lutou com unhas e dentes para manter a cabeça acima d’água no áspero Brooklyn novaiorquino da época, preso à condição de filho de imigrantes russos judeus, porém pobres. Lutou de forma igualmente feroz para dar vida a sua galeria de filmes subversivos. O primeiro foi Fritz the Cat,  de 1972, adaptação da obra do maluco de carteirinha Robert Crumb. Foi o primeiro desenho a receber classifiação “X”, ou seja, o primeiro desenho de sacanagem da história:


Não que não tivesse havido outros desenhos de sacanagem antes de Fritz, mas nenhum tinha sido feito por um diretor tão sério e animadores tão talentosos

Depois de Fritz,  Bakshi fez Coonskin, Heavy Traffic e a primeira adaptação cinematográfica do Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien,  que pavimentou o caminho para a versão arrasa quarteirão do Peter Jackson.

Bakshi no subúrbio

Levei anos para aprender tudo que acabei de citar. Por muito tempo, aprender qualquer coisa de uma cultura alternativa era como montar um quebra cabeça de mil peças. Não só pela ausência da internet, mas porque o Brasil era um isolado subúrbio onde quase nada chegava.  Continuamos subúrbio, mas agora a informação chega. Quer prova ? O NUPA ( Núcleo Paulista de Animação) está promovendo palestras sobre o mestre Bakshi capitaneadas por Céu D’Ellia. Bakshi no terminal Cachoeirinha. Quem diria ? Confira aqui

Tinha que ser o Bakshi, mesmo

As novas aventuras de Super Mouse morreram depois de uma temporada apenas, mas não sem controvérsias.  Uma família do Kentucky ( nosso Tocantins ) assistiu a um episódio em que Super Mouse cheirava pétalas em pó, e associou o feito a outra coisa. Ligaram para a Associação da Família Americana ( que medo ) e começaram uma campanha para que o episódio em questão  fosse mutilado.  A cena em si não diz grande coisa,  o que sugere patrulhamento. Afinal,  como confiar os cuidados de seus filhos ao entretenimento televisivo familiar, se um dos envolvidos já fez filme pornô ? É uma barbaridade.

Super Mouse dando uma cafungada de leve. É pó ou não é, Lombardiii ?

 

O Bakshi nosso de cada dia

Muita gente que diz não ter tido a vida influenciada por Steve Jobs por falta de um Ipad ou pod. Porém não sabem que o mesmo foi responsável pelo mouse e o Windows nosso de cada dia.  Uma analogia semelhante cabe a Bakshi…

Amantes do Bob Esponja e Ren and Stimpy não se dão conta do quanto Super Mouse lhes afeta a vida. Praticamente toda a animação televisiva, desde o final dos anos 80 até hoje, se pautou em Ralph Bakshi, em termos artísticos: fundos distorcidos e desenhos de personagens dementes. Mesmo a parte do roteiro: O nonsense de Family Guy, Adventure Time ou FlapJack, está erguido sob o estilo Ren and Stimpy, de Jonh Kricfalusi, que trabalhou com Bakshi em Super Mouse.

De certa forma, me parece natural que a revolução na animação tenha sido liderada por Bakshi e Super Mouse. Bakshi, porque era o mais anárquico entre todos os diretores de animação da época. Super Mouse, porque Bakshi começou a carreira nos estúdios Terrytoons, onde o roedor foi criado. Às vezes, a justiça não é só poética. É também histórica.

Para fechar, a abertura. Preste atenção na música, só com baixo, vocal e o backing. Genial:

Logo menos tem mais

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