À Sombra das Torres Ausentes ou; Um Dia a Casa Cai

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Tudo Começou nas Malvinas

Sempre acompanhei desgraças.  Catástrofes globais, que falo. Minha primeira, foi a Guerra das Malvinas,  com narração de Eliakim Araújo e Cid Moreira,  em caráter diário, no Jornal Nacional. E no final de cada episódio, encenava os combates no tapete da sala de casa, com Playmobils. O pai  notou que eu era general ruim, porque permitia que os bonecos alcançassem a paz através de acordos. “Sem talento para general”, dizia o pai.   “Você pertence é às palavras”. Não entendia.  Hoje, o percebo correto.

Mais tarde,  menino sensível, imaginativo e cristão, eu choraria pela Challenger, teria pesadelos radiativos com Chernobil, e rezaria pelos sobreviventes do terremoto no México. Também viria a rezar por Tancredo, mas aí foi jogo baixo, porque tocavam coração de estudante, de partir muito o coração

Com a Challenger, se foram também minhas certezas de que ninguém, nem mesmo os CIENTISTAS  DA NASA, poderiam me oferecer quaisquer garantias de segurança inabalável nessa vida

Um Dia a Casa Cai

Mas de todas, duas tragédias ocupam destaque especial na memória, por jamais imaginar  que as veria, em meu tempo de vida: a dissolução da URSS e a queda do muro de Berlim, e os EUA sob ataque.  Imagino que a última servirá também de tema favorito às artes, tão logo quanto, desculpem o trocadilho,  a poeira baixar. Ainda não vimos produções sobre o assunto, porque  há um intervalo até que uma tragédia seja decupada em filmes, séries, games e afins. Um certo respeito pelos mortos e suas famílias, talvez. Mas passado isso, vira carne de vaca, e começando logo logo, por certo veremos de tudo.  E o 11 de setembro comecará  a competir com a Segunda Guerra Mundial pelo título de tragédia mais vendável.  Contudo, uma obra já existe, e sempre terá o mérito de ter sido executada muito antes do estouro da boiada.  Um romance gráfico, obra do residente novaiorquino Art  Spiegelman:  À sombra das torres ausentes.

Este É um Trabalho para o Spiegelman

A providência tem das suas. Spiegelman tinha decidido não mais fazer quadrinhos por causa do trampo insano que estes demandam. Mas daí apareceu um editor com uma proposta  indecente, do tipo que nenhum cartunista na plenitude de suas faculdades poderia recusar.  Talvez  por  seu histórico, de mãe suicida e pai sobrevivente de campo de concentração,   que ele especule com tanta frequência sobre a plenitude de suas faculdades. Mas aparentemente algumas propostas são indecentes a ponto de seduzir mesmo os sem faculdades. Ele topou.

Sorte a nossa, porque ao meu ver, Spiegelman era o homem perfeito para o trabalho ( alguém aí consegue pensar em outro ? ) , pois bacharel pós graduado em sofrimento nível punk,  ele consegue tratar do fim do mundo sem esquecer que o Apocalipse é tão natural quanto a Criação. Ele já havia praticado bem,  em sua obra anterior, na qual abordou os perrengues  familiares supracitados de maneira primorosa: MAUS . Não leu? Cuida de si ? Então leia.

O relato em À Sombra das Torres Ausentes segue o estilo habitual de Spiegelman: não linear e inesperado,  que no caso  se mostra pela interferência de personagens da primeira década do século passado, os primeiros a aparecerem em quadrinhos, em tiras de jornal (The Yellow Kid, Krazy Kat, Os Sobrinhos do Capitão, Nemo in Slumberland ) para fazer contraponto entre a inocente América de outrora, e a de hoje, onde a canalha em Washington corre solta e impunemente. Nada na história indica se isso é o que ele realmente pensa, ou se está sendo sarcástico. Talvez tenha padecido mesmo de  puro saudosismo, cujo menor dos compromissos costuma ser com a verdade.

Teria Spiegelman escolhido personagens da era de ouro dos quadrinhos para contar sua história porque a América seria uma país mais inocente então, ou por saudades de sua própria  inocência ? Afinal, desde que foi fundado, não é o país um palco do abuso dos poucos contra os muitos, em que quase sempre, quem se ferra são muitos ?

I Love to Hate You

Spiegelman se parece muito com outros novaiorquinos a quem ouço, leio e assisto, de  Lou Reed a Woody Allen e Paulo Francis ( esse, postiço ); gente que parece ter um  amor incondicional à cidade, mas com afetação controlada. E sempre nos lembrando que não compactuam com o pensar do resto do país, porque  um outro país. É nessa questão que ele fica mais pessoal, ao revelar suas opiniões políticas, sugerindo que não haja nada mais tenaz que um belo ódio. Entre os venenos, diz que as eleições presidenciais  de 2000 foram mutreta, acusando Bush e patota de golpe de estado. Também o acusa de usar a maldita guerra para distrair o público, enquanto lhes tomava o dinheiro e o distribuía entre os comparsas.  Reclama de ambos os partidos, dizendo-os resquícios de um longíquo século 19, longe de qualquer sintonia com a realidade, e despidos de sua função primordial: servir ao público, servindo para servirem a si mesmos ao invés,  e aponta tal como sendo  a razão principal pela alienação política da maioria dos americanos. Nada do que já não se ouça aos quatro cantos, verdade, mas poucos o dizem de maneira tão peculiar e divertida. Olha:


Spiegelman propõe a criação de um novo partido para os alienados da política: o Partido Avestruz, onde a onda é enfiar a cabeça no buraco. Teria mais correligionários ainda, por aqui.

Das Teorias Conspiratórias

Grande parte do palavrório sobre os atentados sempre acaba em conspiração:
O governo planejou tudo ? Ou simplesmente só o sabia e nada fez ? A primeira, mais gostosa porque mais poética. A segunda, mais plausível. Devaneios à parte, para Spiegelman, uma coisa não se discute: torres abaixo, o governo americano não tardou a instrumentalizar o ataque para capitalizar a própria agenda;  se valendo do medo e patriotismo de supermercado para poderem invadir um país que não tinha nada a ver com aquela história.

Verdade que várias dessas teorias caem bem a malucos, mas não quer dizer que sejam em todo maluquices. Não é mentira que o governo se valeu sim, do medo disseminado pela mídia para tentar suspender liberdades, e transformar o país em um estado mais policial. Qualquer olho bem treinado pôde ver como se faz.

E por fim, Spiegelman nos lembra que os efeitos colaterais do ocorrido não são monopólio dos novaiorquinos. Ele cita uma visita a uma cidadezinha em Indiana, totalmente coberta em bandeiras americanas, em sinal de patriotismo, como se fossem o alho que espantaria os vampiros terroristas. Fácil imaginar cidades mil país adentro: no Kentucky, Kansas, Oklahoma… afe.

Por aqui, os consultórios dos terapeutas lotaram de gente que percebeu que o chão é menos firme que achavam. Sempre é. Na real, foi isso que mudou. Para minha geração, criada na TV “USA, nove às seis”, tivemos um gosto de que impérios são vulneráveis, partilhando o medo e excitação já sentidos por tantos, ao decorrer da história do mundo, ante uma grande mudança de paradigma, ou ao menos, a possibiliade de tal mudança sequer existir.

Daqui, me calo. Prefiro usar as palavras finais de Spiegelman:

As torres haviam vindo para parecerem maiores que a vida.

Mas o que parece é que encolhem a cada dia.

Feliz aniversário

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