Comunismo Smurf ou; por um mundo mais Smurfette

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Sempre detestei os Smurfs. E as possíveis razões que meus colegas tinham para apreciá-los, permanecem inexplicadas à minha satisfação. Sobretudo em uma época com tantas outras cousas ruins para serem apreciadas.

Aquela história de todo mundo igual me gerava horrores magnos. Havia ainda a perseguição aos destoantes, o autoritarismo do cretino Papai Smurf e aquele papo da Smurfette ser a única mulher entre a maioria macho. Esse último ítem, para mim, um então infante formatado pela leitura literal da bíblia, parecia o pecado supremo. Em resultado, no meu exercício diário de arauto mirim do evangelho, eu torcia para que o mago Gargamel conseguisse destruir os malditos. Afinal, algumas mortes são comandadas por Deus; tipo de pensamento que atrasa o mundo há milênios. E pensar que eu já caí nessa…

Se no início, por ideologia religiosa, eu torcia para o Gargamel, com o passar do tempo, continuei torcendo. Porém, por outras razões. Comecei a apreciar a idéia de Gargamel capturar os malditos Smurfs para transformá-los em OURO. Mudei de Deus. Tornei-me devoto fervoroso do liberalismo econômico.

Segundo muitos, os Smurfs seriam uma referência ao Comunismo. A acusação se sustentaria sobre serem uma comunidade que divide fraternamente tudo o que produz, sem divisão de classes sociais, e onde todo mundo veste a mesma roupa, exceto, claro, o cabuloso líder, que veste modelito semelhante, porém em vermelho escuro. Claro.

Também aponta-se o uso de Gargamel e Cruel, os vilões da série, como metáfora da dominação do mais frágil e da exploração de sua mão de obra, que, segundo Marx, seria o que torna possível a mais-valia. Afinal, como já apontei, os vilões queriam capturar os Smurfs para transformá-los em ouro.

Parem quietos, malditos. Como esperam que eu fique rico sem que eu tenha mais fracos para explorar???

Logo, hoje,  despido de quaisquer deuses e tendo  finalmente me tornado quem sempre fui, percebo que o mais incômodo mesmo era aquela atmosfera de regime totalitário, que, aliás, cai como luva para qualquer desses regimes ditos comunistas. Em todos eles, consta ao menos a tentativa da aniquilação da individualidade, transformando todo mundo  em gado. Pode-se argumentar que o capitalismo faz pior, massificando a massa muda, além da conta, para que comprem e comprem mais. Mas, para os indivíduos evoluídos dos regimes desse tipo, há saídas.  Talvez estreitas, porém críveis. E sem a necessaidade de se rebaixar ao conluio com os mafiosos do poder. Mesmo em feudos, como o nosso, a saída ainda é possível. Mas a maioria se afoga mesmo, pois no final, vida é maremoto e salva-se quem pode.

Nos Smurfs,  as constantes agressões que Gênio sofria por expressar seu ponto de vista, poderia ser alusão aos milhares que Stalin fez fuzilar, por pedirem liberdade. Nas democracias, ao menos, se pode marchar. Por isso a parada gay reuniu 2000 almas em sua primeira edição, contra 15 da parada hetero. Porque os convictos homos da primeira parada, pressuponho, a acomparanham com algum cunho ideológico, que presumia liberdade, um Deus digno de devoção, pois essencial ao espírito humano. Depois, tudo descambou em arrasta pé, como sempre, mas melhor não me empolgar nisso ou estouro as laudas.

E agora me vêm os heteros querendo marchar. Pelo quê? Pelo direito de pegar mulherada e contrair matrimônio com o sexo oposto? Já não o fazem, ou ao menos tentam? Não entendi.

 

Na vida real, sob os regimes que se disseram comunistas, Gênio e Vaidoso teriam sido condenados a um campo de trabalhos forçados. Sibéria neles, camaradas!

Há outros ítens que contribuem para que “Os Smurfs” figurem na lista das obras que fazem analogia direta ao mundo real; o Gargamel tem cara de judeu e é um indivíduo mesquinho, sujo, que mora numa casa velha e se veste de preto. Em suma, um estereótipo que se perpetra através das eras, com seus picos e vales de intensidade. Peyo, o Belga inventor do conceito original dos Smurfs, teria sido simpatizante nazista e membro da Ku Klux Klan, segundo muitos.

A Smurfette (aqui, em ilustração feita pelo honorável Hiro), foi criada pelo Gargamel para seduzir os Smurfs e destruí-los, mas foi convencida a virar casaca pelo velho um-sete-um Papai Smurf. Sendo assim, Smurfette seria a representação de uma junção entre capitalismo e comunismo. Uma China da vida, ou talvez até um estado de bem estar social europeu

Depois de ter já sido pró isso e contra aquilo, de ter rotulado pessoas em série,  subtraindo delas a condição humana, (o real cerne de todo bem e mal), hoje, contrariando meu eu de outrora, sou a favor mesmo é da Smurfette. Pois sei que por trás do blá blá blá de religiosos, banqueiros, comunistas, homos e tal, o que se processa de fato, é a sobrevivência do mais apto. Como não raro, idéias boas produzem ruído (e vice versa), me pergunto: há alternativa a não pesar todas essas idéias; promovendo ajustes constantes entre princípios que funcionam, ainda que contrárias em aspectos? Há saída mais humanamente sensata do que tentar entender o mala do próximo, trabalhando pela  junção entre opostos, criando assim, uma Smurfette ? E se ela quiser dar para 99, problema dela. Afinal, que dá o que é seu não é desdouro. Em suma, trólólólós militantes à parte, os bichas têm razão.

Os princípios básicos do catolicismo e comunismo podem estar em baixa, mas é um grande erro pensar que seus idealizadores eram ingênuos, pois ambos continuam sendo alternativas melhores a muito do que vemos por aí. E na boa… Veja o que tem ao redor. Você gosta?

 

 

 

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