A Fronteira do Fim do Universo ou; O Governo é Bom Também

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Se Tatooine, o planeta natal de Luke Skywalker,  tivesse tido um governo brasileiro, provavelmente não seria tosco assim.

Nós brasileiros somos todos iguais. Igualmente omissos. A classe média paulistana é tudo a mesma coisa. Rico é tudo assim. Pobre é tudo assado. E por aí vai. Generalizar é uma delícia. Se me deixassem, o faria dia afora. Sobretudo com o agravante de que pode funcionar, se não para servir a verdade como um todo, ao menos como norte. E generalizar é confortável, é como reclamar. Poderíamos fazer menos de ambos, que embora nada mudem, fortalecem nosso ego, resolvendo várias tretas, e então continuamos.

Mas VÁRIAS tretas não são TODAS, nem sequer a maioria. Quantas das que ficam nos impedem de crescer? Como são desconfortáveis, desviamos um atalho. Além de reclamar e generalizar, creditar nossas misérias a outrém é o maior dos aliados contra o tal do desconforto. Quando então muito medrosos, é possível apelar,  abrindo mão da obrigação de encarar qualquer verdade, presumindo-a em manuais. Em suma, estratégias mil para atingir o mesmo fim: deixar a espada justiceira com visão além do alcance na gaveta e sair dando rolê  como se fôssemos Magoo. É o conforto garantido, que leva a escondermo-nos dos óbvios da vida.

Maldita gente cega

Não há generalização mais confortável que ao governo, vilão de todos os teatros, que rouba, mente e mata. Talvez verdade em essência, é distorcido de exageros, crer que governos e Igreja só tenham feito isso da vida. Os dois salvaram e mataram gente.  Reconheço a tentação em creditá-los por mazelas, pois com fachada ao invés de rosto, é impossível achar um culpado. É exercício que nos transforma em supra sumos morais,  e não exige raciocínio;  O governo é ruim porque não dá educação e saúde para o povo que não sabe votar então o governo é ruim porque não dáeducaçãoesaúdeparaopovo… Sinceramente? Para mim, isso é falcatrua intelectual.

O governo sacaneia a classe média, que não tarda a revidar, desfilando seus rancores na Veja, debates midiáticos e  jantares. Às vezes arranha. Raramente machuca. Mas ao menos alivia. Eis a  Democracia, sempre disponível numa loja perto de você, nas opções Coca-Cola e PUC/USP , mas em falta na versão IGUATEMI, porque ricos se ocupam do dinheiro, a fazer ou a gastar. Generalizar é tão gostoso que quase não notamos abastados que se importam com o rebanho,  do qual por vezes tomam conta até. Também nos escapam os políticos populistas sinceros, membros dessa estrutura arcaica que corroe o Brasil há meio milênio, mas concessionários de benesses às massas. É fato que são a favor da reforma contanto que deixem seu latifúndio fora disso. Mas alguém aí conhece gente que proponha reforma que ponha em risco seu cabuloso apê com espaço gurmê?  Somos só marionetes a serviço do ego. A diferença é que as melhores entre elas conseguem ver as cordinhas, e nos mostram o caminho para uma vida menos papelão. Matemáticos, psicólogos, filósofos, teólogos, afins são categóricos: o conforto atrofia o crescimento. Sua manutenção exacerbada gera um medo desproporcional.  Quanto mais confortável, menos riscos, menos oportunidades e embora desconforto não mate, congela ideias e ações mais do que a falta de investimento de qualquer governo.

Quem quiser um monumento que olhe ao redor : um mundaréu de gente que prefere abrir mão do próprio potencial, tanto em termos da própria vida quanto da sua contribuição para os outros, se deixando congelar por medos vindos de um mundo cada vez mais artificial, que força todo mundo a viver pequeno. Cada um na sua, tudo bem,  mas se estivesem felizes, ao meu ver, não salivariam ante o sucesso de Disney, Jobbs e afins. Não são os bilhões que medem o sucesso de alguém e causa inveja. Isso é coisa de marqueteiro ( os primeiros ao paredão no dia do julgamento, com fé). O que mede o real sucesso de alguém é a satisfação de ter saído de sua zona de conforto e seguido sua caminho ( há vários nomes para tal movimento.  Tipos para todos os gostos).

Imaginem o Steve Jobs, já magnata da informática, abrindo mão de seu conforto, perdendo cinco milhões de dólares por cinco anos consecutivos na tentativa de fazer virar uma certa PIXAR, estúdio pioneiro na animação 3D no cinema, hoje carne da vaca, mas que na época, ninguém sabia se funcionaria. Ou o Disney, pegando a fortuna que ganhou com Steamboat Willie, de 1928, terceiro filme do Mickey e primeiro filme com som sincronizado da história do cinema, e invenstindo tudo e mais um muito no primeiro longa de animação da história, Branca de neve, que ninguém sabia se daria certo.

Mesmo depois do successo monstro dos 2 Toy Stories, a Pixar fez o que qualquer um não faria: Saiu de seu conforto,  mudou os diretores e até chamou gente de fora para dirgir os filmes, que geraram mais sucesso, mostrando que se mexe sim, em time que está ganhando.

Eu sempre achei que Disney e Jobs fossem visionários. Hoje, acho que fizeram o que lhes deu na telha, com porralouquice controlada, e no final se realizaram ( no caso de Jobs, ainda segue firme ).  No processo, vão quebrando a cara, como aconteceu com Disney em Fantasia e com Jobs, quando saiu da Apple e abriu a fiascosa Next. Mas vão também atingindo tantas pessoas que acabam mudando o mundo. E se o fizessem pela grana, ambos teriam parado logo após começar.  Felicidade é precisar não se preocupar com grana, o que nem sempre está ligado a ser rico. Muito pelo contrário. Mas por falar em dinheirama, engravatados da Disney acabaram pagando 7 bi pela Pixar. As energias de Walt e Steve se encontraram no final. Coisa de cosmo.

“Ah, mas eu não nasci em Roliúde”. Mesmo quem nasceu em Boa Vista, Roraima, pode deixar seu dinheiro no banco assegurando o futuro dos seus tataranetos, ou seguir seu coração, saindo do seu conforto, correndo risco ( financeiro ou do ridículo) e acabando por criar o que talvez seja a construção mais pitoresca da cidade:

Cinema em BoaVista, Roraima. Seja quem for o responsável, partilhou o potencial e passou o seu recado ( ainda que surreal ), alegrando a mim e a tantos outros. Parabéns.

Claro que nem toda demonstração de potencial é fácil de digerir, por mais enigmática que seja a justificativa:

Também; coisas de Roraima.

Sim, estive em Roraima durante a Páscoa. Sim, foi por escolha própria.  Ter ido à praia teria sido super gostosinho mas não teria me levado  um passo adiante na vida sequer. Praticar o desconforto me levou a Boa Vista e praticando a versão power acabei indo à Guiana, onde os sintomas da desagregação me bateram bem na cara sem qualquer pingo de dó. Uma língua oficial (inglês). Quatro dialetos. Mão inglesa nas ruas ( de terra, sem calçadas) Pretos, europeus, índios, indianos e o escambau,  praticando uma cordialidade que mais parecia-lhes um fardo. Brasileiros advindos de São Paulo lhes exigia abstração maior do que dormir em rede sem parede.  Não que alguém em algum momento sequer tivesse se dado o trabalho de perguntar de onde éramos ( Não fui só. Havia o mestre Edu mais o Mendes, futuro compadre de casamento, junto ). Não vou me estender porque já estourei as laudas, mas digo que o bar no entreposto em Guerra nas Estrelas é fichinha perto daquele cafundó.

Já em Roraima tive a possibilidade de ver o país real em oposto ao caricato e burlesco. Me senti em casa apesar do fim de mundo, porque é incrível a linha unificadora que une os extremos desta vastidão, traçada com régua pela santíssima trindade: Estado, Igreja e Rede Globo, orquestrada pelo governo, que é muito bom nisso. Este país tem dono e aqui existe um projeto de nação. Tal princípio nos escapa todo dia enquanto perdemos tempo reclamando do quanto o governo não presta, o que também não é errado. Todas duas são verdade. Mas quem decide qual valor atribuir a cada uma é cada um.

Apesar do ceiticismo, vejo por onde o país pode vir a se tornar grande potência, com todas as benesses e efeitos colaterais, e  voto a favor. Acho que devemos pavimentar a estrada até Georgetown, fazendo um elo com o Caribe. Acho que devemos abrir fronteiras com o Suriname e qualquer outro fim de mundo que se beneficiaria de nossa presença e vice versa. Assim foi com outras potências, assim deveria ser conosco. Aos que pensam igual, legal saber que é treta. Teremos que sair da nossa zona de conforto. Há efeitos já sentidos: não poder fumar ali, não poder dirigir assado, não poder mais mesa na calçada, bar com hora para fechar e patati patatá.  Ser primeiro mundo é isso ( e muito mais, claro ), mas com grandes poderes vêm grandes responsabilidades, e com o poderio econômico, vem toda a pobraiada no volante e avuando. Para os que não topam as grandes nações, tem também os legaizinhos de morar: Canadá, Scandinávia, Suiça, Luxemburgo…

Frank Zappa dizia que toda grande nação deve ter sua bandeira, seu time de futebol e sua cerveja. Acho também que hoje em dia, deve ter um ícone pop, algo facilmente reconhecido e explorado em bonequinho e camiseta. Se o Brasil, quando potência ( e a decisão é tão ou mais civil individual do que política pública ), precisar fincar bandeira pop em território alheio, como fazem no nosso, e precisar de embaixadores, terei feito meu trabalho. É com orgulho que apresento o segundo membro da Superintendência da Liga dos Estados da União; Roraimo, o Super visor:

A fronteira norte está protegida graças a Roraimo, o Super Visor e sua arara Boa Vista.  Pois ir dormir sabendo que as hordas da Guiana não vão nos invadir não tem preço

Não foi confortável abrir mão de meu conforto e destruir pré concebidos.  Mas ao menos a satisfação de estar seguindo no meu caminho cura a ressaca.

Grande Abraço

L

Ps. Trilha Sonora: You Are What You Is, de Frank Zappa, pois quem mais seremos senão nós mesmos?

https://www.youtube.com/watch?v=Nbji-YiroeU&feature=related

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